
Dessa vez quem foi contratada não fui eu. Foi a câmera. A SIC me chamou para gravar o material de comunicação da nova novela, Destino Maior: o genérico e os mupis. Tudo em croma, fundo verde, para depois recortar e compor. O detalhe curioso é o motivo do convite. O departamento tem Sony FX3 em casa, uma câmera que eles usam muito, mas que não grava RAW internamente. E para trabalho de croma, isso pesa. Então pediram para eu ir com a Lumix S1II, justamente pela capacidade de gravar ProRes RAW interno.
Vou explicar por que isso importa, sem enrolação.
Croma Key vive de duas coisas: luz e informação.
A luz é a metade que se resolve no set. Fundo verde bem iluminado e uniforme, sem sombra, sem variação de um canto para o outro, e sem spill verde batendo no talento. Quando o verde está limpo, o recorte na pós já começa fácil. Quando o verde está sujo, você passa horas consertando o que a luz deveria ter entregado de graça. Nesse set, o Ramiro e a equipe de elétrica deixaram o fundo redondo. Metade do trabalho estava feita antes de eu apertar o rec.
A outra metade é informação, e é aqui que o RAW entra. Gravando em ProRes RAW, o arquivo que eu levo para a ilha carrega a cor ainda crua, sem processamento aplicado, e todo o alcance do sensor preservado. Na hora de recortar, isso vira borda limpa: sem serrilhado, sem aquele contorno duro, sem o verde fantasma que aparece no fio do cabelo quando o arquivo é pobre. Mais dado para trabalhar é mais precisão no recorte. Simples assim.
E teve um detalhe de cena que fez o RAW valer ainda mais: tinha ventilador para fazer o cabelo da atriz voar. Cabelo solto em movimento é o pesadelo de todo croma, porque é onde mais quebra, o fio fino se mistura com o fundo e o recorte falha. É exatamente o cenário onde o RAW mais salva.
Os números do dia
Gravei em C4K 50p, Apple ProRes RAW HQ, direto no CFexpress B, na casa dos 3,5 Gbps. Arquivo pesado, mas é esse peso que vira qualidade de recorte. Os 50p, além de tudo, deram margem para dar um leve slow no cabelo voando na edição, já que a timeline de finalização é 25p. Gravei proxy em paralelo, então a edição começa leve, com arquivos pequenos, e a finalização acontece em cima do RAW. Fluxo redondo, sem travar máquina.
No fim, é sobre a ferramenta certa para cada trabalho. Aquela cena pedia RAW interno, e a S1II entregou exatamente isso.
Resultado final chega em breve.

