
Fomos à Festa Medieval de Óbidos em família, para comemorar o aniversário da minha filha mais velha. Não era trabalho, era passeio. Mas a câmera vai sempre comigo, e quando o lugar é bom, ela sai da mochila sozinha.
Levei a Lumix S1II com a 50mm f1.4 S Pro e gravei alguns takes curtos em ProRes RAW, sem plano, sem estrutura, só a seguir o que a festa oferecia. E a festa ofereceu muito.
Entre as ruas de pedra e as bandeiras, o que me prendeu não foi o cenário, foi o trabalho das mãos. Gente a criar coisas ali, à frente de toda a gente, com uma calma que já não é deste tempo.
As mãos que faziam a festa
Um trio de músicos atravessava o castelo a tocar por onde passava, os Serrabecos, mascarados de lobo, corvo e bode como espíritos saídos de uma fábula. O Lobo num instrumento de oito cordas parecido com um bandolim, os outros na percussão. Levavam a música com eles, e onde paravam juntava-se gente.
Um pouco adiante, um artesão talhava madeira, o formão firme na mão, cada golpe a tirar do bloco uma forma que só ele ainda via, sem pressa nenhuma, como quem tem o dia todo e mais algum.
O barro que vira voz
E depois a Bruna Antunes, que faz do barro instrumento. Nas mãos dela o barro vira ocarina, uma flauta ancestral de sopro que dá voz à terra. Filmei-a a tocar uma que ela própria moldou, os dedos a taparem e destaparem os furos para mudar a nota, tal como numa flauta.
E mais tarde uma peça mais estranha e bonita: duas cabeças de barro, uma cheia de água, e outra oca, furada da mesma forma, que ela baixava devagar para dentro da primeira. Ao afundar, a água comprimia o ar preso lá dentro, e esse ar escapava pelos furos em som. A cabeça cantava sozinha, movida só pela água a subir, e a nota mudava conforme os dedos dela fechavam um furo ou outro. Não se inventa uma coisa destas numa mesa de edição. Só se estava lá para a apanhar.
Porque gravei em RAW
Foi para momentos assim que gravei em RAW. Não pela sigla nem pelo tamanho do ficheiro, mas pela margem que o formato dá depois. O ProRes RAW guarda os dados lineares do sensor, e o decode da Panasonic entrega-os em V-Gamut/V-Log, que é o ponto de partida para o color grade. Dali para a frente há latitude a sério: corrigir exposição, ajustar temperatura, puxar as sombras da pedra sombria ou segurar as altas-luzes do sol de tarde sem partir a imagem.
A camisa branca da Bruna, em pleno sol de meio-dia, é o melhor exemplo: em vez de estourar numa mancha chapada, manteve as dobras, os vincos, a costura. Esse detalhe que parecia perdido estava lá, guardado no ficheiro, à espera de ser trazido de volta no grade. A luz de Óbidos era bonita mas dura, e foi essa margem que deixou moldar cada plano até ficar como eu o tinha visto ali, ao vivo.
A lente e a câmera
A 50mm a f1.4 fez o resto. Separou cada artesão do fundo, deixou o mundo à volta desfocar-se e pôs o foco onde interessava, nas mãos, no instrumento, no gesto. A S1II segurou tudo, luz difícil e movimento de multidão, sem reclamar.
Não fui a Óbidos trabalhar. Fui viver o dia com a família. Mas há dias em que o ofício e o prazer não se separam, e o melhor que se pode fazer é ter a ferramenta certa na mão quando a terra decide cantar.
Um obrigado aos Serrabecos (@serrabecos.musica) e à Bruna Antunes (@_bruna_antunes_06 e @flor.da.lua.jewelry) pela arte que trouxeram à festa.




